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História

 

Santa Eugénia de Rio Covo

 

Rio Covo, orago Santa Eugénia, foi primitivamente do padroado do mosteiro da Várzea, passando, depois da sua extinção, para outros padroeiros, um dos quais foi o convento dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista (Loios), do Porto, por D. Manuel de Noronha ter renunciado esse direito em beneficio a este convento tendo essa renúncia sido confirmada por Bula do Papa Paulo III, no ano 1535.

Desde então até 1834 ficou o seu pároco a ser apresentado, com o titulo de vigário, pelo Reitor deste convento.

O nome de Rio Covo vem a esta freguesia do ribeiro, afluente do Cavado, que a banha e nela têm a sua confluência.

O rio Covo dá o seu nome a duas freguesias deste concelho: uma quase na sua nascente, Santa Eulália, e outra na sua foz, esta de Santa Eugénia.

Nas inquirições de 1220 vem esta freguesia com a designação: - «De Sancta Eugenia de Couto da Várzea», nas Terras de Faria e nelas se diz que o rei tem aqui alguns reguengos, fora do couto, e que «ista ecclesia est Várzea».

Santa Eugénia, juntamente com outras, pertenceu ao couto da Várzea. Esse couto foi dado, por carta de 8 de Novembro de 1401, a D. Afonso, 8.º Conde de Barcelos e mais tarde 1.º Duque de Bragança não constando que ela tivesse sido retirada posteriormente à exitinção daquele mosteiro, da jurisdição a que pertencia.

O P.e Carvalho, porém, na sua Corografia Portuguesa, a pág. 278, escreve quando se refere a esta freguesia:«Dizem foy antigamente couto de Guimarães & por castigo, & privilegio que tinhão erão os moradores obrigados a ir-lhe varrer as ruas; mas sendo muy prejudicial a Barcellos haver aqui este couto tam seu visinho, em que escolhião seus criminosos, donde sahião a rouballos lhes derão em troca as duas Freguesias de Cunha & Ruylhe com a mesma obrigação».

Na verdade era grande privilegio que tinham os moradores da Santa Eugénia de irem varrer as ruas de Guimarães!... Não se encontra porém uma base segura para arquitectar tal prerrogativa e muito menos para afirmar que esta freguesia fosse couto de Guimarães.

É certo que o P.e Carvalho se estriba no dizem para nos dar tal novidade.

A crítica histórica, senhora que por certo não era do seu conhecimento, o chamará porém um dia a contas; nós pela nossa parte deixaremos em paz as cinzas de tão emérito patranheiro.

O que é muito para admirar é que alguns escritores, como W. no seu belo artigo - «Barcelos e seus difamadores» admitisse a hipótese de que Santa Eugénia fosse couto de Guimarães, que se desse a troca desta freguesia e consequentemente o trespasse da obrigação dos seus moradores.

É um facto incontestável que os moradores de Cunha e Ruilhe tinham a obrigação de, em certas épocas do ano, irem varrer as ruas açougues de Guimarães: vê-se da sentença dada naquela vila em 23 de Junho de 1608, na qual se reconhece aquela obrigação antiquíssima, e da Provisão de D. João V, de 25 de Fevereiro de 1743, que a extinguiu.

Que os moradores daquelas duas freguesias ficassem a substituir os desta no honroso cargo de varrer as ruas de Guimarães não se encontra porém em documento algum autêntico; apenas o vago e impreciso dizem do citado padre.

Pinho Leal no Portugal Antigo e Moderno, volume 8.º, páginas 190, dá esta freguesia de Santa Eugénia como pertencente ao julgado Vermuim. Parece haver equívoco, pois é fora de dúvida que era do julgado de Penafiel.

No Censo da População de 1527 diz-se que pertencia a este julgado - «Titulo do jullgado de Penafiell – Sancta Ugenia».

Corre a tradição oral que a primitiva Igreja matriz esteve no sítio da Fonte Nova.

De um curioso livro, escrito pelo vigário Heitor de Góis Barbosa, consta porém que a actual Igreja está no mesmo sítio da antiga e que foi reformada á fundamentis em 1756.

O seu novo torreão, de duas sineiras, ergueu-se ao lado direito do frontispício e foi construído em 18…

Quando da grande reforma da Igreja, fizeram, uma pequena sineira do outro lado, onde puzeram o sino fundido em 1712, hoje tudo desaparecido.

A Capela-mor foi reconstruída posteriormente à reforma da Igreja, sendo benzida em 8 de Dezembro de 1760.

O Sacramento foi instituído permanentemente em 1768.

Há na parede direita do corpo da Igreja uns preciosos quadros muito antigos.

Existe uma única confraria: a de Nossa Senhora da Vitória, muito antiga, com estatutos de 1603, que julgo não sejam os primitivos e que foram reformados em 1914.

Na Igreja não havia sepulturas privativas, todas eram comuns; mas quem fosse enterrado dentro dela, sendo cabeceira, pagava 200 reis e sendo família pagava 100 reis para as obras da mesma.

O Adro, todo cercado por parede, servia de cemitério e foi benzido em 26 de Junho de 1774.

Neste, junto à parede do lado sul e em frente à sacristia da Senhora da Vitória, esteve um curiosíssimo túmulo que hoje se vê no Museu das Torres dos Condes Duques de Bragança, para onde foi mandado levar por o Ex.mo Sr. Dr. Miguel Pereira da Silva Fonseca, quando Presidente da Câmara Municipal.

No apreciado livro do Sr. José Mancelos Sampaio, «Barcelos-Resenha Histórica», a fl.16vem uma bela fotografia desse túmulo. Essa fotografia foi feita por o Sr. Augusto Soucasaux, que a anotou assim: «Túmulo românico dos fins do século XIII, belissímo e perfeito». Ornamentado nas faces com trilóbulos e quadrilóbulos, círculos concêntricos, crescente, signosaimão, etc. Alguns motivos desta arte também se vêem nos jugos que predominam no nosso concelho.

Inscrição que está gravada na tampa, com bastante nitidez, é esta: «ISTE: TVMVLO: DOMINICI: PETRI: DICTI: SEQVEIRA: DE: BARCEL: ET: FECI: FVIT: MESE: JVLII: E: MCCC: XX: II.»

Como se vê da inscrição este túmulo é do século XIII e dizem-me que esteve primitivamente na quinta do Desterro.

Em frente à matriz estende-se um amplo terreiro, ao fundo do qual se ergue o Cruzeiro Paroquial, sem data, que deve ser da mesma época da reforma daquela e ao lado nascente deste está o Cemitério, cujo portão ostenta e data 1887. Contém alguns jazigos.

Ao lado nascente da Igreja está a Residência Paroquial, e no cruzamento da avenida que vai do cemitério à Antiga Estrada Real de Barcelos a Braga vêem-se umas Alminhas, conhecidas por alminhas dos Carvalhos, com seu alpendre, tendo a data de 1875.

Neste mesmo sítio existiu um outro Nicho ou Alminhas que foram mudadas para o sítio do Pinheiro, ao lado da Estrada Nacional n.º 4. Estas Alminhas são hoje conhecidas por Alminhas do Pinheiro ou Senhor da Telha. Este nome advem-lhe da devoção que os carreteiros de telha têm de quando passam por ali deixarem uma telha para as suas obras.

Na sua frente existe um pequeno alpendre com bancos; por cima tem gravado na pedra 1729 e aos lados pintadas as seguintes inscrições: «FOI CONSTRUIDA. ESTA. OBRA. NO. ANNO. DE. 1729», e mais abaixo: «FORÃO. MUDADAS. PARA. ESTE. LOCAL. NO.ANNO. DE. 1870» e mais abaixo «FORÃO. RETUCADAS. NO ANNO DE 1886».

Existiu uma única Capela e essa particular, a de Nossa Senhora do Desterro, junta à casa do mesmo nome.

É brasonada e tem sobre a padieira da porta a seguinte inscrição: «DIOGO. DE. MENDANHA. FERRAZ. MANDOV. FAZER. ESTA. ERMIDA. DA. S.ª DO. DESTERRO.» e na padieira «1630».

Conserva ainda exteriormente as suas linhas arquitectónicas, mas está há muitos anos profanada; foi corte de ovelhas e o seu último proprietário, Fernando António Simões Vilaça, no sítio onde estava o altar, mandou fazer uma chaminé, servindo hoje de cozinha dos caseiros!

Esta freguesia situada na planície que se estende ao norte do monte de Maio e confronta pelo norte com o rio Cavado, pelo nascente com as freguesias de Areias de Vilar e Adães, pelo sul com as da Várzea e Gamil, e pelo poente com as de Alvelos e Barcelinhos.

É banhada de sul a norte pelo rio Covo e de nascente a poente na sua extremidade pelo rio Cavado e atravessada na sua maior extensão pela Estrada Nacional n.º 4 de Barcelos a Famalicão.

De sul a norte é também atravessada pela linha férrea do Minho e Douro, aberta ao público, de Barcelos ao Porto, em 21 de Outubro de 1877.

Uma das suas obras mais importantes nesta freguesia é a ponte metálica sobre o Cavado, foi obra da Casa Eiffel de Paris e mede 130 metros de comprimento.

As fontes desta freguesia são: a Fonte da Barroca, a do Assento, etc.

Existe uma fonte particular na Quinta do Desterro conhecida pelo nome de Santo Antão, com nicho e imagem do santo.

A população do século XVI era de 34 moradores; no século XVII era de 70 vizinhos, no século XVIII era de 53 fogos; no século XIX era de 296 habitantes e pelo último censo de população é de 351 habitantes, sendo 162 varões e 189 fêmeas, sabendo ler 56 homens e 13 mulheres.

Não tem escola oficial e tem uma caixa de correio.

Esta população está distribuída pelos seguintes lugares habitados: Assento, Eido, Pinheiro, Moinhos, Torre, Fonte Fria, Cruzeiro, Quinta, Lubagueira, Caniça, Bairro e Bouça de Airó.

As suas casas mais importantes são: a da Torre, a do Desterro, a do Eido, a do Órfão, a do Pinheiro, a do Quintas, a de Lubagueira, a dos Meireis, e a do Macieira.

Houve nesta freguesia um Morgado importante que foi o dos Góis, do qual foi possuidor o «Alferes Barcelense» Gaspar Góis do Rego bem como o foi também do de Marece em Calvelo.  As terras que constituíam esse Morgado, da qual fazia parte o açude do rio Cavado nesta freguesia, fraccionaram-se.

Ainda há poucos anos havia terras que eram foreiras a Calvelo; talvez as que pertenceram ao Morgado dois Góis.

Não tem esta freguesia, caso raro, loja ou venda e a sua indústria está reduzida a alguns moinhos de farinar e pouco mais.

Existem nesta freguesia os seguintes açudes: um no rio Cavado e dois no rio Covo.

Dos homens mais ilustres, cujos nomes andam ligados a esta freguesia, mencionaremos os seguintes:

Gaspar de Góis do Rego, «O Alferes Barcelense», filho de António do Rego Barreto, Almoxarife e Juiz dos direitos reais em Barcelos, senhor do Morgado de marece em São Pedro de Calvos, que julgo ser São Pedro de Calvelo, e do Morgado dos Góis em Santa Eugénia de Rio Covo.

Sucedeu por morte de seu pai naqueles Morgados, sendo Comendador de Santa Olaia, na Ordem de Cristo, etc.

Foi casado com D. Maria Tavares, filha bastarda vde D. Fulgêncio de Bragança, Chantre da Colegiada de Barcelos, filho do segundo matrimónio do Duque de Bragança D. Jaime, o que assassinou a primeira mulher por desconfianças que teve com um gentil págem.

Gaspar de Góis do Rego, aparentado com a melhor nobreza do reino, disfrutou pingues cargos e foi o companheiro do infantil Duque de Barcelos D. Teodósio na infortunada jornada de África, como alferes de bandeira dos Braganças, sendo um dos muitos que desapareceu na terrível voragem das margens do Lucus.

D. Manuel de Noronha, abade de Santa Eugénia de Rio Covo, nomeado bispo de Lamego, renunciou o beneficio desta Igreja ao Convento dos Lóios da cidade do Porto.

Diogo de Mendanha Ferraz, que mandou fazer a capela de Nossa Senhora do Desterro, junto à quinta do mesmo nome, em 1639.

Heitor de Goyos Barbosa, vigário de Santa Eugénia no fim do século XVIII escreveu umas «Lembranças», espécie de Memórias, acerca desta freguesia.

Além das referências que a elas já fizemos, relataremos alguns factos aí narrados por serem curiosos.

No dia 8 de Janeiro de 1789 caiu tal nevão nesta freguesia que a neve chegou a atingir dois palmos de altura. Diziam os velhos que há 51 anos tinha sucedido igual facto.

Em 24 de Janeiro de 1800, depois de terem dado as 6 horas da manhã, caiu por terra a fronteira da torre da ponte de Barcelos e, como caísse sobre a ponte, «botou abaixo um grande pedaço sobre o primeiro arco por estarem as pedras muito trabadas».

Em 25 de Janeiro de 1747 houve alguma chuva moderada e nos dias seguintes continuou, começando a soprar «vento vendaval» de maneira que no dia 28 apareceu o rio Cavado «tão abundante de águas que produziu a maior cheia que nele se acorda, de tal sorte que abundou muito acima dos olhares da ponte da vila de Barcelos e embaraçou a sahida para a dita vila, abaixo da Capela de Santo António de Barcelinhos, entrando pelo Campo de Cima para a parte de S. Braz e saindo eu pela tarde a ver as muitas águas, vi andar inundado e coberto o Campo do Dessegueiro da residência desta Igreja, sem embargo de tão distante, alto e retirado: e para de que seja Deus louvado para sempre nas suas obras e prodígios, fiz esta lembrança hoje ut supra – Heitor de Goyos Barbosa, vigário».

Esta freguesia no Tombo e mais papeis do Arquivo da Sé de Braga, e no Roteio de Visita na Câmara Eclesiástica acha-se designada pelo nome de Santa Eugénia de Peñafiel ou Penafiel.

Bibliografia:

Livro Aquém e Além Cávado de Teotónio da Fonseca



Imagem da padroeira Santa Eugénia


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